
A Incubadora de Empresas da COPPE/UFRJ lançou em 18 de setembro de 2026, na Inovateca do Parque Tecnológico da UFRJ, o Marco Zero: da ideia ao MVP, programa de incubação voltado à inovação social de base tecnológica. Segundo Marcos Chaves, head da incubadora, é o primeiro programa da casa dedicado à geração de impacto social.
Com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), o programa acompanha dez iniciativas por 24 semanas, até o Demoday previsto para 23 de fevereiro de 2027. O Marco Zero dá continuidade ao trabalho da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), criada na própria COPPE em 1995. Foi a primeira incubadora do gênero no país e nasceu da ideia de que soluções para problemas sociais se constroem de forma coletiva.
Origem: a incubadora de cooperativas populares
A ITCP/COPPE surgiu em 1995 de um debate sobre o papel da universidade pública diante da pobreza, travado durante a mobilização contra a fome liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. A incubadora foi criada pela COPPE em cooperação com três instituições: o Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida (COEP), a FINEP e a Fundação Banco do Brasil. Seu fundador e primeiro diretor foi o professor Gonçalo Guimarães. A partir de 2015, a ITCP passou a ser coordenada pela professora Eliane Ribeiro (FACC/UFRJ) e, desde 2023, pela professora Amanda Xavier (PEP/COPPE).
A proposta era pôr o conhecimento da universidade a serviço de trabalhadores organizados em cooperativas e associações. A primeira experiência foi com uma cooperativa na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro. A metodologia de incubação foi sistematizada em 1998, ano em que se formou a rede universitária de ITCPs, que hoje reúne mais de 60 incubadoras.

O modelo virou política pública com o Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (Proninc), criado em 1998 e regulamentado pelo Decreto 7.357, de 17 de novembro de 2010. Segundo a equipe da incubadora, a ITCP/COPPE teve papel central na estruturação do programa, por ter sido a primeira ITCP do país. De acordo com dados institucionais da ITCP, mais de 200 empreendimentos sociais foram apoiados entre 1995 e 2015.
Pausa e retomada
A pandemia de covid-19 interrompeu as atividades da ITCP em 2020 e 2021. Em 2022 houve apenas ações pontuais. Nesse período, os empreendimentos que estavam incubados se dispersaram, por perda de contato ou porque deixaram de existir. Depois da pandemia, a equipe chegou a visitar duas das cooperativas atendidas, mas, segundo Rebeca Amaral, não tinha estrutura para apoiá-las como precisavam.
Na retomada, a avaliação foi de que era preciso reinventar a incubadora sem perder o legado, ampliando o foco do cooperativismo para a inovação social de base tecnológica.
O processo de reorganização começou em 2023. Em julho de 2024, a ITCP foi incorporada à Incubadora de Empresas da COPPE como linha temática de inovação social, formando uma organização única.
O desenho do Marco Zero levou quase dois anos de trabalho, conduzido por Rebeca Amaral e Marcos Chaves. A incubadora define inovação social de base tecnológica como a criação de produtos, processos, métodos ou programas que usam tecnologia para promover transformações sociais positivas e sustentáveis, com potencial de se tornar um modelo de negócio.
Quem faz o programa
O Marco Zero é coordenado por Rebeca Amaral, líder de Inovação Social da Incubadora de Empresas da COPPE/UFRJ, sob a direção de Marcos Chaves. Na abertura do evento, Thiago Aragão, diretor-adjunto de Tecnologia e Inovação da COPPE, atribuiu aos dois a frente do projeto. Ele lembrou que a incubadora, historicamente voltada ao empreendedorismo de mercado, já apoiou mais de 100 startups. A equipe do programa tem 12 integrantes, além de parceiros que atuam nos workshops, nas mentorias e na fábrica de software.

A estrutura do programa inclui:
- trilha formativa de empreendedorismo com 12 módulos, baseada no método da efetuação, da pesquisadora Saras Sarasvathy;
- fábrica de software para desenvolver os MVPs, entre outubro e novembro;
- workshops de inovação social, mentorias individuais e coletivas e orientação jurídico-contábil;
- espaço de coworking e sete entregas ao longo do programa.
Os parceiros citados no material oficial são o Parque Tecnológico da UFRJ, a FINEP, o Sebrae, a Associação Brasileira dos Mentores de Negócios (ABMEN), a GSales B2B, que apoiou a captação dos empreendedores, e as empresas EloGroup e Visagio, graduadas na incubadora. As áreas de foco são educação, saúde, desenvolvimento territorial, sustentabilidade e inclusão produtiva.
O investimento da FINEP
O edital informa que o Marco Zero usa “recursos previamente destinados” pela FINEP. Segundo Marcos Chaves, a verba veio de um projeto do Parque Tecnológico da UFRJ financiado pela FINEP, que já previa recursos para a ITCP. O recurso cobre dois ciclos semestrais do programa e pode ser usado até 2027. Os participantes não recebem aporte financeiro direto: o investimento se traduz em formação, mentoria, infraestrutura e desenvolvimento de software.
A FINEP acompanha essa trajetória desde a origem, já que esteve entre os financiadores da criação da ITCP em 1995. No dia do lançamento, a financiadora abriu, com o Ministério do Trabalho e Emprego, a chamada do Proninc 2026. A chamada oferece de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões por projeto executado por ITCPs em conjunto com Núcleos de Inovação Tecnológica, com propostas até 14 de janeiro de 2027. A incubadora da COPPE pretende concorrer.
As dez iniciativas selecionadas

As iniciativas foram escolhidas entre as inscrições feitas de 1º a 31 de julho e apresentadas em vídeo no evento. Os dados de prêmios e parcerias foram informados pelas próprias equipes.
| Iniciativa | Responsável(is) | Proposta |
|---|---|---|
| Tecnologia Sustentável de Impressão Direta | Luísa Schubach | Dispositivo em resina impresso em 3D que substitui moldes de plástico térmico, reduzindo material, resíduo e emissões, com foco na democratização do acesso à saúde odontológica. |
| Veredictos Vision | Gabriel Maia | Dispositivo portátil com inteligência artificial para detectar doenças oculares silenciosas. Segundo a equipe, venceu o CrewAI Challenge 2025 e trabalha com o SUS. |
| Corujinha Bem – Social Visão do Bem (SVB) | Ana Lucia Santos | Jogo que propõe substituir a triagem de acuidade visual em crianças em fase de alfabetização. |
| Vem Estar | André da Silva Barreto e Paulo Romai | Plataforma que conecta idosos e pessoas com deficiência para reduzir o isolamento, com encontros por afinidade. |
| Sitimi Labs Inovação | Eduardo Monte | Cisternas inteligentes para captação e gestão da água da chuva, voltadas à segurança hídrica. |
| Sistema Rihanna | Debora Nascimento | Plataforma que usa modelagem hidrodinâmica para prever alagamentos e redefinir rotas de transporte. Segundo a equipe, ficou em 1º lugar no 8º Desafio de Inovação do COR-Rio. |
| Pólen Intersetorial | Alexandre Diegues | Plataforma para organizar equipes que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade educacional. |
| Helio Atlas | Arthur Antonio de Souza | Geração distribuída de energia solar para municípios e órgãos públicos. |
| Vozes Talent | Meire Emanuela | Formação, mentoria e banco de talentos para mulheres na área de tecnologia. |
| SAFEA | Inês Moreira | Dispositivo de segurança para mulheres, com compartilhamento de localização, alerta de emergência e gravação de áudio. |
Visão coletiva

A ideia de visão coletiva atravessou a mesa-redonda “Inovação Social de Base Tecnológica: desafios e oportunidades”, mediada por Rebeca Amaral. Aline Brufato, doutora em Gestão e Inovação pela COPPE, abriu o debate com a afirmação de que nenhuma iniciativa se faz sozinha. Pelo método da efetuação, o empreendedor parte de quem é, do que sabe e de quem conhece, e cada encontro pode virar um compromisso e, depois, uma parceria.
Felipe Addor, do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES/UFRJ), defendeu que as tecnologias sejam construídas com as comunidades, a partir de um diagnóstico participativo do território. Pelo conceito de adequação sociotécnica, que ele citou, é a tecnologia que se adapta ao território, e não o contrário. Carolina Müller, do Programa PISTA, do Governo do Estado do Rio, descreveu a mesma lógica como escuta dialógica: o que funciona na Rocinha precisa ser reconstruído antes de chegar ao Alemão. Luane Macedo, da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio, acrescentou que o papel do poder público é induzir essas iniciativas sem burocratizá-las.

A pergunta de fechamento de Rebeca foi se um negócio social de base tecnológica pode dar lucro sem perder a essência do impacto. As respostas voltaram ao coletivo. Aline Brufato descreveu a trajetória do empreendedor como uma autonomia compartilhada com os parceiros. Felipe Addor lembrou que a economia solidária fala em renda e em sobras apropriadas coletivamente, no lugar de lucro. Para ele, o que se espera dos selecionados é que preservem a finalidade social ao longo do tempo, porque “não é só um produto, é uma tecnologia pensada com a sociedade, para a sociedade”.
A frase retoma o ponto de partida da ITCP, que em 1995 começou a incubar cooperativas populares.
“Empreender sozinho é como olhar por uma luneta: enxerga-se longe, mas não o que está em volta, justamente onde estão as pessoas para quem se propõe empreender. Vê-se o futuro esperado na imaginação, e não na realidade das necessidades coletivas. É isso que leva ao fracasso.”
Evalnir, editor do Pauta do Dia
Fontes
- COPPE: lançamento do Marco Zero (09/07/2026)
- Edital do Marco Zero
- COPPE: histórico da ITCP
- Ghibaudi, Universidad y políticas de economía social en Brasil
- Revista Farol/UFMG
- Decreto 7.357/2010
- MTE: FINEP abre seleção do Proninc 2026 (18/09/2026)
- Cobertura do evento de lançamento, 18/09/2026


